picture by Ridge Benben

Two years ago I was invited by a french publication called Culture Dialog to write an article about emptiness.

Facing this difficult times i believe it’s a relevant subject to reflect on, I hope it makes sense to you!

Although in the western culture emptiness is frequently referred as an absence of something, as a negative, sad or even depressive human condition, lately I’ve been inclined to a different perspective on the subject.

A while ago I found myself laying on the floor in a convulsive effort to breath. My heart was beating extremely fast and I just couldn’t move. My thoughts were in an intense and incessant flow, and I couldn’t think clear.

It was the prelude for a short-circuit. An alert in maximum volume of an imminent collapse.

Both body and mind couldn’t follow the incompatible speed of things, and suddenly it seemed that I was forcibly resetting.

When your body gets in such an extreme condition the odds of rethinking behaviors and habits are huge. And quite possibly you will find yourself immersed in a whirl of questionings. With me it was not different.

Although I didn’t realize right away, that event and the questionings after it were fundamentally important to trigger what I would later call, a pursuit for emptiness.

Getting aware that my life was overly full, that I was overwhelmed, and unconsciously craving for space and time was a turning point.

I remember that by that time, a particular documentary called “Minimalism: A documentary about important things” caught my eye, the key point was life editing.

The idea of fulfilling life with a kind of emptiness by living with less made all the sense to me. It was a different perspective and I sincerely could relate to it.

In fact, I had too many things, unceasing obligations, I was overthinking most of the time, surrounded by too many people and opinions. Not to mention the time internet and social media were consuming in my life. No wonder I was collapsing. I urgently needed to empty out several aspects of my life.

My starting point was trying to clean the mind.

Including meditation and mindfulness techniques on my routine became an important practice and guideline. But as nothing good comes easy, it wasn’t few the occasions when I found myself struggling to meditate, I still do sometimes, discipline and resolution were determinant factors to keep me focused on going on.

By exercising filtering and selecting thoughts I felt much calmer and balanced. Creating headspace, this mental state of emptiness, made wonders, particularly in what referred to peace and fulfillment.

Next step was moving on into things. Indeed, our homes, offices and closets need emptiness as much as our heads.

The point here was not giving up on things indiscriminately, but again, editing was the goal. Leave the overweight and stick with what really mattered. Buying less was also put into perspective.

The excess of things can take out not only physical space but also a lot of energy, and once you perceive that it won’t take long until you feel the urge of getting away from your “excesses”.

Buying less, by which I don’t mean not buying at all, came as consequence.

Much of our consumption behavior is unconscious, automatic and motivated by anxiety, social media and the marketing industry. Creating a real awareness on that was decisive on the process. The calmer and centered I felt the less impulsive I was in terms of purchasing.

Once captivated by this “editing flow” I proposed myself a bigger challenge. Getting rid of toxic people.

The decision of cutting people out of our lives takes courage. It’s tough, particularly if you are expected to please others most of the time.  At first, I felt guilty, questioning myself if I wasn’t just being intolerant or selfish. But recognizing that some people are abusive or simply don’t aggregate in life calls a decision. And once I had the courage to do that, I felt emptier and contradictorily complete.

Understanding the importance of creating space both in the mind and physically, and putting it into practice were incredibly important steps towards a more balanced life. Facing emptiness from this new perspective, disconnected from the concept of absence brought me not only profound mindset changes but remarkable benefits. Definitely a one-way road.

Images by Ridge Benben

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Há dois anos fui convidada por uma publicação francesa, a Culture Dialog, para escrever um artigo compartilhando meu ponto de vista sobre emptiness – termo em inglês que se refere ao vazio.

Relendo o artigo achei bem apropriado para esse delicado momento que estamos atravessando.

Espero que ele possa servir como um vetor para reflexão.

Ainda que na cultura ocidental o vazio seja frequentemente associado à  ausência de alguma coisa, e a sensação de vazio à uma condição humana negativa, triste e até mesmo depressiva, venho considerando o tema sob uma diferente perspectiva.

Há algum tempo vivenciei um episódio de ansiedade que serviu de gatilho para muitas reflexões e mudanças de comportamento. Era um dia normal no escritório quando me deparei em um esforço convulsivo para conseguir respirar. Meu coração batia extremamente acelerado e eu simplesmente não conseguia me mover. Meus pensamentos circulavam em um fluxo incessante, e era impossível pensar com clareza.

Era o prelúdio de um curto-circuito. O alerta em volume máximo de um colapso iminente.

Corpo e mente já não podiam mais acompanhar a incompatível velocidade das coisas, e eu estava sendo obrigada a resetar imediatamente.

Quando o corpo chega à tão extrema condição, você se vê imerso em um turbilhão de questionamentos e torna-se impossível não repensar comportamentos e hábitos.

Esses questionamentos foram vetores importantes para o que eu mais tarde chamaria de “busca pelo esvaziamento”.

Tomar consciência do meu estado de saturação, aceitar que eu estava realmente sobrecarregada, e inconscientemente suplicando por espaço e tempo foram um turning point.

Naquela época assisti um documentário chamado “Minimalism: A documentary about important things” que me chamou muito a atenção, cujo tema central discorria sobre como editar diferentes aspectos da vida. Uma ode à simplificação.

A contraditória ideia de preencher a vida através de vazios, fez todo sentido para mim. De fato eu estava cercada por muitas coisas, muitas pessoas, opiniões e obrigações sem fim. Sem mencionar o quanto internet e social media consumiam do meu tempo. Não era de se estranhar que eu estivesse a ponto de colapsar.

Meu ponto de partida foi trabalhar o esvaziamento da mente, introduzindo na rotina a prática de meditação e técnicas de mindfulness.

Mas como nada bom se conquista sem uma dose de sacrifício, não foram poucas as ocasiões em que me peguei “lutando” para conseguir meditar, e embora às vezes isso ainda aconteça, tenho consciência de que o segredo está em manter a disciplina e a consistência na prática. 

O exercício de filtrar e selecionar pensamentos, criando esse espaço mental, me proporcionou tranquilidade e equilíbrio.

O próximo passo estava relacionado às coisas materiais.

Tanto quanto nossa mente, nossas casas, escritórios e closets precisam de espaço, precisam do vazio.

O objetivo não era me livrar das coisas indiscriminadamente, mas sim iniciar um processo de edição, abrindo mão do “peso extra” e ficando com o realmente importante. Nessa fase o consumo também foi colocado em perspectiva.

O excesso de coisas além de ocupar espaço fisico, consome muito da nossa energia, e uma vez isso percebido não demora para que a necessidade de abrir mão dos excessos se manifeste.

Consumir menos, o que não significa não consumir, acabou tornando-se consequência.

Muito do nosso comportamento de consumo é inconsciente, automático e motivado por ansiedade, social media e pela industria do marketing. Por isso a tomada de consciência é decisiva no processo. Quanto mais calma e centrada eu me sentia, menos impulsiva em termos de consumo eu ficava.

Uma vez imersa nesse “fluxo de edição” me propus um desafio maior, me desconectar dos relacionamentos tóxicos.

A decisão de cortar algumas pessoas de nossas vidas requer coragem. Em um primeiro momento você vai se sentir culpado, vai se questionar se está sendo intolerante ou até mesmo egoísta, mas reconhecer que algumas pessoas são abusivas ou simplesmente não agregam valor em nossas vidas requer ação. E uma vez que você tenha a coragem de fazer o que é necessário pode até se sentir mais sozinho, mas contraditoriamente se sentirá mais completo, feliz e fiel a si mesmo.

A compreensão da importância de criar espaços, sejam eles físicos ou mentais é um passo fundamental em direção a uma vida mais equilibrada. Encarar o vazio sob essa perspectiva, desconectado do conceito da falta, da ausência é uma mudança no mindset e os benefícios são notáveis. Definitivamente um caminho sem volta.

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